Isto de andar a dissertar sobre a vida já anda cansativo... Mas todos os dias nós, no fundo, dissertamos sobre ela. Principalmente no momentos em que olhamos para trás, bem lá para trás, e vemos o que tínhamos, quem tínhamos por perto e que hoje desapareceram. Passaram algumas pessoas pela minha vida que deixaram marca e que eu nunca entendi porque se foram. Hoje encontrei uma delas. Um ele. Na verdade não encontrei, vi-o. Vi-o e desviei o olhar, para não passar pelo constrangimento de o cumprimentar com um seco aceno de cabeça, repleto de mágoa e de dúvidas por compreender. Ele viu-me. Eu sei que sim. E sei que, tal como na minha, a cabeça dele se encheu de lembranças. Às tantas até ficou aliviado por eu "não o ter visto". Se calhar não. Fez um ano, há pouco, que ele criou um muro entre nós. Eu estava a apaixonar-me. Estava tão perto.. E sei que estava porque não lhe reconhecia os defeitos que tantas pessoas vêem e que mesmo eu hoje vejo. Via-o com um brilho imenso. Alguém especial, fora do normal, fora do vulgar. Apreciava tudo o que ele fazia. Bebia-lhe as palavras, as opiniões e principalmente as criações. Apaixonei-me por um livro dele quando eu nunca tinha sido apreciadora de semelhante género. Entreguei-me a momentos com ele como nunca o havia feito. Na ilusão de que ele via ou veria em mim o que tanto almejava e necessitava.
E de repente, de um momento para o outro, essa pessoa que eu tanto admirava desaparece. Dá lugar a um homem rotineiro. Vulgar. Frio. Cuja delicadeza de palavras se havia ido para parte incerta. Alguém que não brilhava. Esse homem não só me tratou mal como se afastou de mim.
Nos meses seguintes as atitudes dele eram contraditórias. A pessoa de quem eu gostava mostrava-se de quando em vez mas era para desaparecer. E desapareceu. Levou o brilho. Levou uma amizade recém criada mas bonita. Levou um sentimento que crescia. Levou um fascínio e a esperança que de facto havia pessoas diferentes neste mundo. Que os artistas andavam aí. Foi um dos desgostos da minha vida. Descobrir que afinal ele não valia nada. Tal como muitos outros. Pior, demonstrou-se sem carácter.
Já não o via há muito. E vê-lo deixa-me um sabor agridoce na boca. Pensar que por detrás daquilo se encontra alguém fenomenal. Alguém que ele se esforçou por esconder e eu nunca percebi porquê. Hoje somos desconhecidos. Há momentos que ainda sinto raiva dele. Outros sinto falta. Na maioria passa-me ao lado, nem me lembro. Não o amei. Não gostei a sério dele. Foi uma paixoneta... Foi giro enquanto durou...
gosto da maneira como escreves, revejo me em alguns dos teus textos. mas este em particular fez me lembrar a minha história, parece que afinal nao sou caso único. passei pelo mesmo: um amigo, bom amigo, uma pessoa tao especial que era impossivel nao gostar, e de repente tornou-se um estranho, uma desilusão sem fim..foi díficil, e tem dias que ainda é..e tambem já passei por ele, e fingi que nao o vi e ele fingiu que nao me viu...e ainda hoje me pergunto, o que raio aconteceu? mas há perguntas que nem merecem resposta, para nao estorvar o presente..
ResponderEliminarobrigada, e continua a partilhar as tuas histórias..
fica bem,
daniela
Daniela, infelizmente, e tal como tenho reparado nos últimos meses, as vidas de muitas raparigas e mulheres são povoadas por histórias semelhantes. E isto tem-me deixado com um pé atrás irreversível no que diz respeito aos homens e às relações que com eles possa crescer. Nós entregamo-nos e depois sofremos as passas do Algarve.
ResponderEliminarFico feliz por te teres identificado e gostado, vai aparecendo:)
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